terça-feira, 16 de abril de 2013

DOAÇÃO


DOAÇÃO

 

Querido Augusto,

 

Sempre me cobrastes palavras afetuosas como prova de meu amor por ti. Não basta ofertar a ti meu riso, minha alegria, meu viço e meus dedicados atos de cuidado. Isso sempre foi pouco. O que mais poderia dar a ti? E o que mais poderia eu receber de ti? Senão dar a si mesmo e receber o outro de presente. Essa é a maravilha de amar. Mas meus afetos possuem o silêncio que minha inquieta língua não tem. Dou a ti as minhas lembranças, os meus suspiros noturnos, meu olhar perdido e a mente vaga das manhãs sem você. Dou a você a minha saudade, porque é tudo que tenho. Gostaria de ter esperança, mas sei que ela não existe. Dou a ti a imagem do meu melhor vestido, o olor do meu melhor perfume. Dedico a ti os vinhos que sirvo a mim mesma no jantar. Dou a ti a saudade que tenho a cada luz de vela que acendo no cair da noite, as flores que planto no meu jardim. Dou a você as músicas que ouço. No mais dou a ti a lágrima que derramo às escondidas, dou a ti o meu silêncio e o desejo que sejas feliz, hoje e sempre. A ti, que tanto afirmara eu não ser romântica, a ti mais que a qualquer outro Augusto, dou o que tenho de mais íntimo e mais nobre: a minha poesia.

 

Catarina.

 

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